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Quando Os Teus Sentimentos Incomodam

Novembro 5, 2025 por sandralourenco
Não Categorizada

Costumava sentir-me mal por incomodar as pessoas com os meus sentimentos. Tantas vezes na minha vida pedi desculpa só por me sentir triste, zangada ou frustrada. Como se sentir fosse algo mau, e eu devesse “controlar-me”.

Cresci numa casa onde sempre senti não haver espaço para os meus sentimentos. Com uma mãe extremamente sensível e reativa, e o meu pai a trabalhar demais, fora de casa sempre que podia e também constantemente esgotado, reativo e frustrado com a vida, eu sinceramente não queria ser mais um fardo.

Descobri recentemente que o meu pai nem sequer sabia (ou tinha reparado) que eu fui vítima de bullying em criança. Mencionei isso casualmente numa conversa, e ele ficou muito surpreendido. “Porque é que não me disseste nada na altura? Eu teria feito alguma coisa.” Sinceramente, já não me lembro se lhe disse alguma coisa nessa altura, mas é provável que não. Contei à minha mãe, que foi ignorada pela escola porque sabiam do seu diagnóstico (transtorno bipolar e esquizofrenia). Contei também ao diretor da escola, não uma, mas duas vezes. Mas escolhi não incomodar a pessoa mais importante da minha vida na altura, e como resultado ele também não me pôde ajudar.

À medida que fui crescendo sem me curar, o padrão voltou a repetir-se. E lá estava eu, numa relação com uma pessoa que ficava muito desconfortável com demonstrações emocionais como o choro, a tentar ao máximo conter-me, enquanto o meu mundo inteiro desabava.

Quando finalmente dizia basta e decidia sair da relação, as pessoas à minha volta ficavam surpreendidas, dizendo que nunca pensaram que a nossa relação acabasse e que nunca sequer imaginaram que eu me sentia tão mal. Nem o meu parceiro percebia. Acho que ainda sou muito boa a esconder o que sinto, mesmo sentindo tudo profundamente. Ou talvez simplesmente continuasse a rodear-me de pessoas que não queriam ver. Talvez as duas coisas.

Sorry To Bother foi escrita há cinco anos atrás, poucos dias depois de mais um aniversário de relação que não celebrámos porque havia algo por resolver, como quase sempre. Mais uma vez, a música foi a minha fuga — a minha forma de expressar os sentimentos mais profundos, de tentar sentir-me ouvida quando sentia que mais ninguém escutava ou queria saber.

Hoje, já não peço desculpa por sentir nem por falar sobre o que sinto. Porque é suposto sentirmos — seja positivo ou negativo, bom ou mau. É a linguagem do nosso corpo, muito mais instintiva e primitiva do que os pensamentos da mente. E se alguém não se sente bem com o facto de eu dizer “Eu sinto…”, encaro isso como um sinal de alerta — não sobre mim, mas sobre essa pessoa: alguém que não consegue tolerar os sentimentos dos outr@s, ficando desconfortável, defensiv@ ou até ofendid@, é alguém que ainda tem trabalho a fazer nesta área.

Não estou a dizer que é certo usar os sentimentos como desculpa para se ser ofensiv@, para gritar ou mesmo para se ser passiv@-agressiv@ (o sarcasmo inclui-se aqui, pois é uma forma de comunicação nociva); o que estou a dizer é que é saudável assumir o que se sente, nomear os sentimentos e pedir tempo para sentires (por exemplo: “Neste momento estou muito zangada e preciso de algum tempo para processar isto. Depois falamos sobre o assunto.” – um exemplo de uma frase honesta e respeitosa, em que alguém nomeia o que sente e dá um passo atrás para processar a emoção).

Se o sentes, é válido. Ouve o teu corpo. Deixa sair. Não guardes isso dentro. É aí que as coisas acabam por se manifestar em algo a que chamamos “doenças”, sendo o cancro o exemplo mais evidente, pois é auto-infligido. As células anormais não aparecem do nada — são o grito mais poderoso do corpo a pedir ajuda. Sente mais, pensa menos. Pensar é apenas a forma que a mente tem de tentar interpretar os sentimentos de uma maneira objetiva, o que nunca resulta totalmente; pensa em como a linguagem minimiza a realidade: a palavra “rosa” nunca poderá transmitir a realidade de uma rosa verdadeira, por mais palavras que juntes para a descrever. O sentir de uma rosa — tocá-la, cheirá-la, vê-la — não pode ser descrito pela mente com precisão.

E qual é o propósito de sentir? É aprender quem realmente és, o que realmente gostas ou não, apesar das convenções, regras e condicionamentos da sociedade. E também, aprender quem os outros realmente são. Quando mostras os teus sentimentos, as pessoas naturalmente mostram quem realmente são: se ficam desconfortáveis, é porque estão desconfortáveis ou desligadas dos próprios sentimentos. Se se sentem ofendidas ou defensivas, é porque não têm segurança em relação a quem são ou ao que sentem, e acabam por tomar os teus sentimentos como uma ofensa ou ataque pessoal, transformando-se num espelho.

Permitir que alguém sinta, abrir esse espaço seguro — não apenas para um sentimento específico, mas para todos eles, para tudo o que nos torna quem somos — permitir a expressão desses sentimentos, dos pensamentos que nascem a partir deles… para mim, isso é a definição de amor verdadeiro. E podem chamar-me romântica, mas continuo a acreditar que um dia ainda o vou encontrar.

Sorry To Bother, disponível a 7 de novembro de 2025 aqui.

Reflexões Sobre Arte Que Não Se Gosta

Agosto 5, 2025 por sandralourenco
Não Categorizada

Alguma vez te perguntaste porque é que não gostas de certas obras de arte?

Ontem fui ver um filme (Sirât). Não é um filme típico. Irritou-me. Algumas partes até me deixaram mesmo zangada, confesso. Saí de lá a sentir sinceramente que não tinha gostado nada. Fui com uma amiga, e não consegui evitar comentar a inconsistência de algumas partes da história, certas coisas que não estavam feitas “como deve ser”, as personagens irritantes a tomarem “más decisões” e, claro, a sofrerem “as consequências”.
A minha amiga passou o filme todo a mandar-me calar, coitadinha. Não consegui conter-me, mas fiz o melhor que pude para guardar os pensamentos para mim.
No fim do filme, trocámos impressões. Ela teve uma interpretação interessante do filme, mas eu estava demasiado focada nas coisas que não gostei.

Hoje, durante a minha meditação matinal, refleti sobre a minha atitude de ontem. Não de forma julgadora, mas com curiosidade e abertura.
Sou uma criadora e fazedora. Uma pessoa muito criativa que também tem uma forte capacidade de transformar pensamentos em ação — uma artista e uma engenheira. Sei fazer muitas coisas e, quando não sei, confio na minha capacidade de descobrir, aprender e, pelo menos, tentar; e na maioria das vezes sou bem-sucedida (não é gabarolice, por favor segue o meu raciocínio).
Mas tendo a focar-me demasiado nessa parte de mim. Esqueço-me de como ser “espectadora”, observadora, ouvinte, porque é muito mais fácil e natural para mim escutar a minha própria voz interior.
Mas a verdade é que a vida é suposto ser um equilíbrio. Fomos feitos para ser artistas e fãs, criadores e espectadores, para dar e receber. Há momentos para fazermos as coisas à nossa maneira, e há momentos para apreciar a forma como os outros as fazem.

Eu nunca teria escrito nem realizado um filme como Sirât. Na verdade, nem teria ido vê-lo se não fosse pela minha amiga. Conseguiu irritar-me, provocar reações e emoções fortes. Mexeu comigo, fez-me pensar, e acabou por me levar a perceber algo sobre mim mesma — talvez até sobre todos nós.

Sempre pensei que certa arte não é para toda a gente, mas hoje penso diferente. Toda a arte é para todos. Se não gostas de algo, pergunta-te porquê; talvez te ensine mais do que a arte que amas.

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